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Opinião | Valter Pieracciani | Inovação

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Valter Pieracciani

12/02/2019

2030: operar como plataformas

Os desafios das fabricantes de veículos e sua ressignificação pelos próximos 15 anos

Recentemente, entrevistamos presidentes, ex-presidentes e dirigentes de P&D, inovação e estratégia de 12 das 20 montadoras que mais vendem automóveis no Brasil. Fizemos a eles as seguintes indagações: o Programa Rota 2030 leva o senhor/a senhora a pensar em um futuro a mais longo prazo no Brasil? (Lembrando que o Programa é composto por três ciclos de cinco anos cada.) Qual é a visão de futuro que o senhor/a senhora tem de sua companhia daqui a quinze anos e como ela estará estruturada nesse horizonte de tempo? Alguns dos entrevistados se deixaram levar pela tentação de discutir produto e não modelo de negócio, mas, peneiradas as respostas, um conceito aparece quase que uníssono entre eles: plataforma. Seremos plataforma.

A resposta vem claramente inspirada nas organizações de grande sucesso da atualidade no mundo. Elas estão longe de ser fábricas ou de simplesmente vender produtos: Amazon, Google, Spotify, Netflix e suas congêneres não se encaixam nas velhas categorias. Não são indústria nem prestação de serviços. São plataformas. No oriente do Ali Baba, da Xiaomi, da Samsung e muitas outras está acontecendo a mesma coisa. Entendemos que foi isso que esses dirigentes quiseram nos dizer. Mas haveria, de verdade, planos estabelecidos a respeito do que mudar para se aproximar desse modelo de negócios? Estariam os fabricantes dispostos a dar menos atenção às fábricas de automóveis, tão bem-sucedidas por tantos anos, e reformar profundamente as companhias? Os fabricantes tradicionais desapareceriam para dar lugar a organizações com essa nova configuração?

Antes de tentar responder a essas indagações vale discutir uma pergunta anterior: o que precisamos mudar, afinal, para nos tornarmos uma empresa-plataforma? É bem verdade que o termo “plataforma” foi adotado pela primeira vez pela própria indústria automobilística para designar o conjunto dos principais componentes do projeto de um veículo, o qual, por sua vez, dará origem aos diversos modelos. No entanto, esse conceito pouco tem a ver com o mais amplo significado atribuído às empresas que mencionamos há pouco, estruturadas em redes e focadas no que é importante para proporcionar experiências encantadoras para os clientes; empresas, enfim, que operam como plataformas. Esperamos que os dirigentes que mencionaram a guinada para as plataformas compreendam de que mudanças estão verdadeiramente falando.

Para o setor auto, poderíamos destacar pelo menos três transformações que consideramos fundamentais.

A primeira é compreender que ser plataforma significa deslocar o foco original de produto que a empresa industrializava até então para os serviços que ela irá agregar. Mais: para a experiência que o cliente vivenciará ao longo de toda a jornada de compra e utilização do bem, de modo a criar real valor para ele. Tornar-se plataforma exigirá diversas e profundas mudanças. Novas tecnologias, design centrado na experiência do cliente, identificação rápida de tendências e técnicas ágeis de gestão, entre outras. Trata-se de uma mudança de paradigma essencial.

A segunda transformação consiste na identificação de parceiros estratégicos e na genuína disposição de construir sólidas parcerias. Para nós, “sólidas parcerias” quer dizer muito mais do que subjugar fornecedores ou mesmo engolir startups. Significa construir reais arranjos ganha-ganha com parceiros que tenham as competências necessárias para permitir à sua montadora uma elevação significativa na experiência do cliente.

Para completar a lista, a terceira mudança essencial diz respeito à cultura organizacional. Nada acontecerá se não forem revisados os valores organizacionais e as novas atitudes a eles alinhadas. Como falou o CEO da Microsoft, Satya Nadella: “Mudança de cultura não é uma abstração. É realmente avançar no caminho”. É possível e necessário mudar a cultura das empresas. Revisitar corajosamente os valores (em geral considerados intocáveis) e ajustá-los, trabalhando em seguida as atitudes que devem ser substituídas ou incentivadas. A boa notícia é que temos tido sucesso com nossos programas MCAV, sigla para Mudança Cultural em Alta Velocidade e, portanto, uma das transformações que parece mais assustadora está ao alcance das empresas do setor.

Coragem! Quinze anos passam rápido!

*Valter Pieracciani é sócio-diretor da Pieracciani Desenvolvimento de Empresas, consultoria especializada em inovação.

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