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Opinião | Thiago Costa |

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Thiago Costa

22/08/2019

Uso de gás em pesados ainda percorrerá um longo caminho

Adesão depende de aumento da oferta, redução de preço e desenvolvimento de veículos

Com o lançamento recente do plano “Novo Mercado do Gás”, que visa a promover a livre concorrência no mercado de gás do Brasil, o governo declarou a intenção de intensificar o uso desse combustível na matriz energética em substituição ao diesel, inclusive no segmento de caminhões. A medida mais impactante do plano é a saída gradual da Petrobrás do mercado de transporte e distribuição de gás.

Segundo dados de frota circulante da IHS Markit, em 2017 havia em torno de 2,3 milhões de caminhões e ônibus no Brasil acima de seis toneladas, sendo 99% deles movidos a óleo diesel, combustível mais utilizado no transporte nacional, principalmente nos deslocamentos em longas distâncias.

Estimativas apontam que varia entre 60% e 75% o número da produção nacional que é escoada por rodovias, tornando o preço do diesel um ponderador importante na composição do preço do frete. As despesas com o combustível chegam a representar até 40% do custo operacional de um caminhão e isso é inevitavelmente repassado ao embarcador.

Em janeiro de 2023 entrará em vigor no Brasil o Proconve 8 (P8) – similar ao Euro VI – em substituição ao Proconve 7 (P7), também chamado de Euro V. A legislação vai restringir ainda mais a emissão dos componentes oriundos da queima incompleta do diesel de veículos pesados. Como forma de adequação à nova legislação, as montadoras deverão investir em adaptação de novas tecnologias ou implementação de motores Euro VI – uma vez que a tecnologia já está disponível para algumas montadoras que exportam esses veículos.

O GÁS COMO COMBUSTÍVEL


Embora sinalizado como combustível do futuro há alguns anos, o gás nunca teve grande adesão por parte dos transportadores e montadoras. O preço do combustível, a distribuição concentrada em algumas regiões e a falta de oferta de veículos movidos a esse combustível contribuíram para a baixa adesão. Nos caminhões, além da falta de uma rede de distribuição efetiva em território nacional, a baixa autonomia nos motores movidos a GNV se torna um problema para veículos que percorrem longas distâncias.

Embora se trate de uma tecnologia consolidada, poucas montadoras dispõem de motores movidos a gás em seu portfólio atual e sua implementação demandaria tempo e investimento. Segundo a pesquisa “O Perfil do Caminhoneiro”, publicada pela CNT (Confederação Nacional do Transporte), 75% das viagens são interestaduais e apenas algumas unidades provedoras de gás não são suficientes para uma mudança na matriz energética dos caminhões num país de dimensões continentais. Soma-se a isso seu alto preço por causa do monopólio da Petrobrás na sua distribuição.

Outra questão relevante é que o principal segmento que demanda caminhões novos, o agronegócio, tem requerido veículos cada vez mais potentes e com grande capacidade de carga. A venda de caminhões pesados (acima de 15 ton de PBT e com capacidade de carga acima de 45 ton) representou 54,5% das vendas ao longo do primeiro semestre e um crescimento de quase 70% sobre mesmo período de 2018.

Neste segmento estão os caminhões mais buscados para o transporte no agronegócio. Entre os novos projetos de caminhões movidos a gás, sejam projetos novos ou em teste, a potência máxima está na faixa de 400 cv e os mais procurados para o transporte do agronegócio partem de 440 cv. O agronegócio hoje é o maior financiador de novas tecnologias e aquisição de bens de capital para expansão e aumento da eficiência do setor, portanto seria um potencial fomentador da mudança da matriz energética no transporte.

MUDANÇA DA MATRIZ ENERGÉTICA?


Segundo o IHS Markit Medium and Heavy Production Forecast, a produção de veículos movidos a algum tipo de combustível alternativo deve dobrar nos próximos cinco anos - ainda assim é um número baixo para que se considere uma mudança na matriz energética dos pesados. Em médio e longo prazos, poucos lançamentos incluem combustíveis alternativos, mesmo que a maioria das montadoras presentes no País faça ou já tenha feito ciclo de testes de motores movidos a esses combustíveis.

A descoberta de novas reservas e a saída gradativa da Petrobrás do mercado de distribuição de gás irão favorecer o aumento da concorrência entre novas empresas, resultando em uma provável diminuição de preço do combustível, além de atrair investimentos para o setor nos próximos anos. O gás ainda possibilita uma queima completa, ou seja, emite baixos índices de NOx e material particulado, tornando-se uma alternativa ao Proconve 8.

Tudo isso, no entanto, não é o suficiente para a massificação do uso do combustível. Embora o programa Rota 2030 preveja benefícios aos veículos que utilizem combustíveis alternativos, as vantagens ainda são pequenas para que ocorra uma migração em larga escala por parte do transportador e da própria indústria.

O agronegócio precisa ser visto como aliado numa possível migração para o gás, uma vez que é o maior fomentador de novas tecnologias e representa parcela significativa na aquisição de caminhões novos. Além disso, a aprovação no congresso do programa de renovação de frota, ao lado de uma política pública para descarte correto dos caminhões em fim de vida, são alternativas que poderão acelerar o processo de mudança da matriz energética no transporte.

Thiago Costa é analista de produção e vendas de veículos pesados da IHS Markit

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