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Opinião | Luiz Roberto Imparato | Eletrificação

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Luiz Roberto Imparato

11/10/2019

Brasil será o fiel depositário do motor a combustão no mundo automotivo elétrico?

País corre o risco de ficar para traz ao nacionalizar tecnologias condenadas ao desuso

Muitos países, mesmo alguns que não fazem parte do chamado Primeiro Mundo, já definiram ou estão definindo uma data para a proibição da produção de veículos com motores a combustão, também determinando que esses veículos deixem de circular – algumas cidades já proíbem a circulação em determinados locais e horários conforme o ano de fabricação do modelo. A Noruega determinou essa proibição para 2025 (2023 para os táxis), Israel 2030, Índia 2030, Califórnia 2035 e Inglaterra 2035, só para citar alguns exemplos.

No Brasil há um Projeto de Lei no Senado Federal propondo a proibição gradual dos motores a combustão, iniciando em 2030, com proibição total até 2060.

As emissões de poluentes e CO2, gás de efeito estufa, motivam as leis de eliminação dos motores a combustão. Segundo o professor Paulo Saldiva, morar em São Paulo significa fumar de quatro a cinco cigarros por dia. A poluição veicular atinge principalmente quem espera seu ônibus nos corredores devido à concentração de ar poluído nas avenidas.

Ainda segundo o professor Saldiva, morrem na Região Metropolitana de São Paulo algo como 20 cidadãos por dia, vítimas do ar que respiram. Nesse número estão incluídos todos os níveis sociais, do gari ao PHD. Para além das tragédias pessoais e familiares que essas perdas significam, tem-se o efeito econômico para a sociedade, poder público, o País todo paga por isso.

Considerando essa realidade presente em inúmeras cidades brasileiras, em menor ou maior intensidade, não vemos aqui diretrizes governamentais efetivas para mitigar o problema da poluição veicular. A Inspeção Veicular foi implantada em São Paulo e, após poucos anos, foi desativada... Existe a legislação estabelecida pelo Proconve, o Programa de Controle de Emissões Veiculares, em vigor desde 1986, que apesar de ser uma conquista para redução dos níveis der poluição, avança vagarosamente na comparação com países desenvolvidos.

Apesar disso, os novos programas governamentais voltados a orientar o desenvolvimento da indústria automobilística no País, como o Rota 2030, não são tão enfáticos com a eletrificação dos veículos produzidos no Brasil e os benefícios que trariam para a redução das emissões.

O Rota 2030 incentiva a eletrificação sim, mas é mais condescendente com as novas tecnologias para motores a combustão, deixando a eletrificação para uma etapa posterior.

Essa falta de priorização parece abrir portas para as empresas já instaladas aqui ou novos entrantes a trazer, na esteira do Rota 2030, a transferência da produção daquilo que já tem data marcada para ser desativado em seus países de origem ou subsidiárias pelo mundo onde a proibição aos motores a combustão já foi estabelecida.

É grande o número de notícias sobre a produção, ou do aumento dela, de componentes anteriormente importados que passarão a ser nacionalizados e muitos exportados das nossas linhas. Eles alimentarão as linhas remanescentes de veículos a combustão em outros países, até a data da proibição de produção, e posteriormente abastecerão os mercados de reposição também até a data da proibição de circulação.

Temos observado, através de matérias recentes, que até Centros de Desenvolvimento de motores a combustão estão a caminho do Brasil, que dessa forma deixa de aproveitar suas potencialidades para a eletrificação dos veículos.

É preciso considerar que o Brasil:
• É um país rico em minérios para a produção de baterias e superímãs;
• Tem Sol abundante para produzir energia fotovoltaica (seu pior local de insolação é 40% melhor do que o melhor local na Alemanha);
• Tem potencial para 13 das 14 formas conhecidas de se produzir hidrogênio, outra fonte para produzir energia para carros elétricos com células de combustível;
• Tem matriz energética pouco dependente de termoelétricas, podendo substituí-las pelas energias eólica e solar (além da já largamente utilizada hidroeletricidade);
• Tem parque industrial automotivo de inúmeras marcas de alta tecnologia na eletrificação;
• Tem uma das maiores frotas de ônibus do planeta;
• Tem como principal modal de transporte de carga o rodoviário;
• Tem uma empresa nacional que é o terceiro maior fabricante mundial de motores elétricos.

Levando todos esses fatores em conta, fica a pergunta: O Rota 2030 beneficiará ou atrasará o Brasil no movimento mundial da eletrificação da tração?



* Luiz Roberto Imparato é economista com especialização em transportes, tem carreira de mais de 40 anos no setor automotivo, com passagens por empresas como Mercedes-Benz e Volkswagen Caminhões e Ônibus; atua como consultor de marketing automotivo e planejamento estratégico

Comentários

  • Ulises

    Muitobem colocado. Não é hoje que vejo a falta de pensamento estratégica dos lideres políticos Brasileiros. Alguns anos atrás já era obvio que o mundo iria atrás da eletrificação, era o tempo do governo incentivar os investimentos pesados no desenvolvimento dessa tecnologia e criar um polo de desenvolvimento e produção mundial de alta eficiência a custo competitivo, porem, parece que outros lobbys com vida mais curta falaram mais alto. Uma questão interessante ainda esta aberta, qual é a data da parada de atividades da Petrobras? 2060?

  • CESARPRATA

    Oresultado do refino de petróleo nas nossas colunas de destilação tem uma divisão perversa. Sobram litros de gasolina e faltam litros de diesel. Isto fez do Brasil um eterno exportador de gasolina e importador de diesel. E não há muito o que se fazer a respeito. É claro, essa desproporção tem a ver com os nossos modais , exageradamente apoiados no diesel. A eletrificação deveria, a meu ver , aproveitar-se desta limitação físico/química , na alta dependência do diesel e focar inicialmente na substituição do próprio diesel . Primeiro os caminhões, ônibus e tratores. Os primeiros bons impactos seriam sentidos, tanto na atmosfera como na balança comercial , mas trariam também , por consequência, a automática criação de alguns novos pontos de recarga nas estradas e nos anéis viários, que seriam mais adiante, a base para o próximo passo para a eletrificação geral. O segundo passo , de substituição da gasolina e etanol , deveria estar casado com projeto de micro geração solar , de forma que usuários adquiram seus novos veículos elétricos , juntamente com seu alimentador doméstico de baixo custo. Seria uma forma de amenizar o sério problema de recarga em todo o país , que levará algum tempo para se alcançar , estimulando o conceito "minha garagem=meu posto" , que penso ser o caminho certo para iniciar o processo. Há também o fato inegável de que não poderemos caminhar para uma eletrificação que não seja sustentável e de que o modelo hidráulico já está razoavelmente bem explorado. O terceiro passo precisa da mão do regulador : O governo. Com estímulos tributários , deverá induzir o desenvolvimento de veículos elétricos brasileiros , por brasileiros. Todo o plano seria em vão se o resultado for uma simples invasão de carrinhos chineses em nossas ruas, quebrando a pujante indústria automotiva local. Como bem colocado pelo Professor Imparato, um dos maiores fabricantes de motores elétricos do mundo , já está aqui em Jaraguá do Sul - SC e é de capital 100% brasileiro. Trata-se da Weg. Mas há também outros 3 fabricantes de motores tradicionais instalados no Brasil : Nova, Hércules e Marathon. Nossa indústria de motores está pronta. O que nos falta para seguir ?

  • YOSHIOKAWAKAMI

    PrezadoImparato, A sua pergunta é um desafio à percepção "enferrujada" que temos desta indústria e ao saudosismo que sentimos em relação ao produto tão romantizado no passado como o automóvel. Mas acredito que os sinais mais recentes que os usuários de automóveis estão emitindo indicam que os 10 anos que nos separam das viradas programadas pelos países citados não deverão se estender longamente como 2060! Muitos já reconhecem os benefícios das novas motorizações híbridas e elétricas que ainda representam uma parcela limitada das vendas. Muita gente no Brasil ainda sonha em ter seus próprios veículos e as condições das extensões territoriais ainda favoreceram a permanência da tecnologia de combustão como parte necessária das soluções. Mas a visão sobre a concentração urbana aponta para um interesse moderno de manter as atividades de forma diferente ou mudar as atividades e reduzir o uso dos automóveis. Afinal não há diferença entre uma parte da população simplesmente deixar de usar uma tecnologia ou todos usarem com menor intensidade. Não acredito que as mazelas da gestão pública associadas aos interesses dos que preferem criar dinossauros sejam tão eficazes em alimentar as necessidades e os interesses da nossa sociedade. Parece-me também que poucas empresas estão desenvolvendo projetos novos de propulsores a combustão. Enfim, acredito que a indústria terá mais benefícios introduzindo novas soluções para os novos clientes. Abraços!

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