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Opinião | Pedro Kutney |

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Pedro Kutney

16/01/2020

Pouco para comemorar

Números positivos de 2019 escondem problemas estruturais da economia e da indústria

Fechada a conta de 2019, a Anfavea, associação que reúne os fabricantes de veículos instalados no Brasil, classificou como “importante” o crescimento de 8,6% das vendas domésticas, que atingiram quase 2,8 milhões de unidades. Mas o tom foi de comemoração tímida: foi bom, mas tinha de ter sido melhor.

Olhando para o resumo do desempenho do setor em 2019, temos o seguinte: as vendas de veículos no País cresceram abaixo do esperado e do necessário, enquanto as exportações despencaram por causa da dependência da Argentina em profunda crise, que deixou mais clara a irrelevância de produtos brasileiros para os mercados mais importantes do mundo, e na soma das duas forças a produção andou de lado, ficou abaixo de 3 milhões de unidades, quase estável em relação a 2018, e com isso prossegue firme a grande ociosidade das fábricas, que na última década receberam investimentos bilionários para fazer algo como 4,5 milhões de veículos/ano.

As vendas domésticas de veículos leves (automóveis e comerciais leves) somaram 2,66 milhões de unidades e cresceram ainda menos que a média geral: ganho de 7,7% sobre 2018 – esperava-se mais de 11% um ano atrás. Mas quase todo o avanço ficou por conta das vendas diretas, aquelas faturadas diretamente pela montadora ao consumidor final, que registraram expansão de 14,3% no ano e representaram recorde histórico de 45% dos negócios. Enquanto isso, no varejo das concessionárias o crescimento foi de pífios 2,6%.

Esse cenário sugere que boa parte dos consumidores não tem renda para comprar automóveis e que o mercado brasileiro está estagnado, sustentado somente pelos negócios com empresas, com descontos vistosos que inibem a rentabilidade. Essa porção de 45% do mercado de veículos leves envolve locadoras (algo abaixo de 20% desse bolo, segundo calcula a Anfavea), empresas em geral, taxistas e pessoas com deficiência, os PCDs. As associações dos fabricantes, Anfavea, e dos distribuidores, Fenabrave, avaliam que essa configuração de mercado veio para ficar e que é sustentável, pois apesar do faturamento direto, número considerável dessas vendas são negociadas no varejo das concessionárias.

ECONOMIA ENFRAQUECIDA



É bom lembrar que o ano começou com a estimativa que a economia nacional, o PIB, iria crescer para além dos 2%, mal chegou a 1%. E a indústria começou 2019 confiante em crescimento para além dos 11%. Foi uma ilusão alimentada pela expectativa política de um novo governo, que não levou em consideração o desemprego em alta e a renda em baixa – o Brasil passou quase todo o ano com cerca de 12 milhões de desempregados, 28 milhões de subempregados e quase 5 milhões de desalentados (que desistiram de procurar emprego); isso sem contar que algo como 40% dos empregados estão fora do mercado formal de trabalho, sem direitos nem contribuições à Previdência.

Nada de concreto foi feito pela tacanha gestão federal para reverter essa situação – pelo contrário, a realização máxima da equipe econômica, sob aplausos do empresariado, foi a aprovação da reforma da Previdência que ao longo dos próximos dez anos, calcula-se, vai retirar R$ 800 bilhões do consumo das famílias e encaminhá-los aos lucros dos bancos.

O alto índice de desemprego e a baixa na renda dos brasileiros inibe qualquer crescimento maior. Nenhum mercado de consumo para de pé com esses números, muito menos um mercado de veículos que, embora tenha terminado 2019 como o sexto maior do mundo, oferece boa parte dos modelos zero-quilômetro acima dos R$ 60 mil. Essa situação por certo corrobora para a proporção recorde de vendas diretas no ano passado – também impulsionadas por gente que não tem emprego e busca um carro em uma locadora para ganhar algum trabalhando como motorista de aplicativo.

É neste ponto da conversa que os empresários do setor interrompem o raciocínio para jogar todas as suas esperanças na queda da inflação e, por consequência, dos juros, que combinado a baixos índices de inadimplência pode aquecer a oferta de crédito barato para a compra de veículos. É verdade que as taxas de usura no País nunca foram tão baixas e isso ajuda a aquecer o consumo de bens duráveis. Mas para um número reduzido de consumidores, pois este é um bem que decorre de um mal: inflação e juros estão baixos porque o consumo está estagnado, justamente por causa da falta de emprego e renda – e da falta de confiança no futuro que obviamente isso traz.

ESPERANÇA PARA 2020



A situação não parece tão boa, mas fabricantes e concessionários se sentem aliviados dos anos de crise intensa e acham que 2020 será melhor, dizem estar “moderadamente otimistas”. A Anfavea estima crescimento das vendas em 9,4%, a Fenabrave aposta em 9,6%, ambas esperam mercado doméstico pouco acima de 3 milhões de unidades, incluindo automóveis, utilitários leves, caminhões e ônibus.

Para as exportações ninguém arrisca esperanças. A realidade é de mercados restritos, em crise, e baixa competitividade internacional dos produtos brasileiros. A Anfavea espera novo tombo das vendas externas. Assim, o que já foi muito mal em 2019 com contração de 32% e embarques de 428 mil veículos, deve ficar ainda pior com mais uma retração de 11%, para apenas 381 mil unidades – menos da metade do recorde de 766 mil em 2017.

Com isso, segundo estima a Anfavea, a produção nacional deve crescer algo em torno de 7% este ano e passar raspando das 3 milhões de unidades – algo que não acontece desde 2014.

Enfim, a melhor esperança para 2020 é de que o Brasil pare de piorar. Até o momento, contudo, há pouco a comemorar.

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Pedro Kutney (pedro@portalab.com.br) é jornalista especializado em economia, finanças e indústria automotiva. É atualmente editor e colunista do portal Automotive Business.

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