Automotive Business
  
ABLive

Opinião | Sérgio Jacobsen |

Ver todas as opiniões
Sérgio Jacobsen

24/01/2020

Eletromobilidade será regida por leis e pelo mercado

Brasileiro é adepto a novidades, o que tende a apressar a substituição de veículos a combustão por elétricos

As questões ambientais têm ganhado relevância dentro das políticas internacionais, já que as grandes nações têm metas cada vez mais rígidas para reduzir as emissões de poluentes. País privilegiado em recursos naturais, o Brasil está longe de ser exemplo nas medidas em favor do meio ambiente se comparado com outras grandes nações, mas tem se esforçado em impor limites quando o assunto são os veículos a combustão.

Nesse cenário, e considerando o tamanho da frota circulante, mais de 100 milhões de veículos sobre rodas, segundo dados de 2018 do IBGE, a eletromobilidade se torna um tema essencial ao pensarmos em um futuro mais sustentável que se traduza em maior qualidade de vida, principalmente nos grandes centros urbanos.

De olho nessa tendência, o governo federal lançou o programa Rota 2030, que inclui várias diretrizes impostas ao segmento automobilístico para a próxima década, visando mais eficiência energética para motores movidos a combustíveis fósseis por meio de incentivos à produção de veículos elétricos e híbridos.

No próximo ano, outro importante passo pode ser dado para estimular a eletromobilidade no País. Tramita no Congresso um projeto de lei do Senado que visa a proibir gradualmente a venda de veículos a combustão para incentivar o aumento da frota de elétricos e híbridos. Apresentado em 2017, o documento pretende alterar a Lei de Redução de Emissão de Poluentes (lei nº 8.723), de 1993, e prega o fim da comercialização dos veículos movidos a diesel, álcool e gasolina até 2060.

Trata-se de uma proposta interessante para reforçar o uso de energia limpa no segmento, mas arrisco a dizer que esse limite pode ser reduzido para 2050 por causa da velocidade com que as inovações têm sido adotadas e pela característica do brasileiro de adotar de maneira rápida as novas tecnologias, tendo mais aderência às soluções vistas como disruptivas. Os dados da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) corroboram isso e apontam que o Brasil quintuplicou sua frota de carros elétricos e híbridos desde 2016.

Isso confirma que à frente de metas e diretrizes colocadas em documentos assinados em Brasília estão as necessidades e demandas do próprio mercado. E importantes projetos voltados à expansão da eletromobilidade têm ocorrido no País justamente para atender a essa procura.

Entre os exemplos está a iniciativa liderada pela Volkswagen Caminhões e Ônibus, que deu origem a um consórcio modular para a fabricação, a partir deste ano, de caminhões elétricos voltados ao segmento de entregas urbanas. O projeto já nasce com um acordo com a Ambev para a entrega de 1,6 mil unidades para a fabricante de bebidas até 2023 e envolve, além da Siemens, outras grandes empresas.

Outro projeto, liderado pela distribuidora de energia EDP e apresentado ao mercado no fim de outubro, visa à instalação de 30 estações de recarga ultrarrápida ao longo das principais rodovias do Estado de São Paulo. Com investimento de mais de R$ 30 milhões, os equipamentos têm potência entre 150 e 350 quilowatts e são capazes de reabastecer até 80% da bateria de um veículo entre 25 e 30 minutos. Com essa nova rede serão 64 pontos de carregamento interligando São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba e Florianópolis com uma cobertura total de 2,5 mil km.

O projeto da EDP conta ainda com grandes montadoras e empresas especializadas em soluções de recarga, entre elas a Siemens. Com essas iniciativas já é possível ver estruturas para carregamento de veículos elétricos em shoppings, postos de gasolina, empresas, condomínios e em estacionamentos de estádios e arenas de eventos.

Apesar de estarem concentrados em locais privados, é questão de tempo para esses equipamentos se espalharem pelas vias públicas e o projeto liderado pela EDP vai neste sentido. Vale ressaltar ainda como impulso para essa tendência os benefícios da eletromobilidade que vão além da redução de poluentes na atmosfera.

O menor custo com a manutenção desses veículos e a ausência de ruído servirão de estímulo para os novos usuários. Segundo dados do Boston Consulting Group (BCG), os veículos elétricos vão representar 5% da frota brasileira até 2030, com vendas de 180 mil veículos ao ano.

O fato de o Brasil ter uma das maiores frotas de veículos do mundo, responsável a 39% das emissões totais de gases de efeito estufa no País em 2016 (segundo dados do Observatório do Clima divulgado em 2018), torna a eletromobilidade uma protagonista na defesa do meio ambiente nos próximos anos.

Medidas políticas e programas de incentivo serão importantes para nortear as atividades no setor em longo prazo, mas quem está ditando o ritmo da revolução é o próprio mercado.

Sérgio Jacobsen é vice-presidente da divisão smart infrastructure da Siemens Brasil

Comentários

  • Denis

    Emprimeiro lugar parabenizo pelo artigo. Muito bem escrito e serve para refletir sobre o tema. Entendo que a tecnologia evolui, as vezes rápidos, as vezes nem tanto, mas sempre avança. Por isso lanço algumas questões para reflexão e espero que auxilie para a compreensão de um tema tão importante. "...tema essencial ao pensarmos em um futuro mais sustentável que se traduza em maior qualidade de vida, principalmente nos grandes centros urbanos.". Em grandes centros urbanos a eletrificação será mais rápida. E no interior do Brasil? E as cidades distantes? E regiões inóspitas? Como fica a questão da autonomia? Acredito que levará muito mais tempo até a adoção total da eletrificação. "...prega o fim da comercialização dos veículos movidos a diesel, álcool e gasolina até 2060.". Nos anos 90 acabaram com a produção de motores 2 tempos para moto. Hoje em dia vemos uma produção de motos 2 tempos focadas em um nicho, os competidores de fora de estrada. Por isso acredito que os motores à combustão não acabarão e sim se tornarão motores para um mercado de nicho. A fórmula 1 já está discutindo a adoção de motores 2 tempos e combustível sintético. "...mas arrisco a dizer que esse limite pode ser reduzido para 2050 por causa da velocidade com que as inovações têm sido adotadas e pela característica do brasileiro de adotar de maneira rápida as novas tecnologias, tendo mais aderência às soluções vistas como disruptivas.". Acho difícil 2050 para a completa parada de produção dos motores à combustão. Além disso, a popularização dos veículos elétricos passa pela questão do custo de investimento. Hoje um Bolt vendido a R$ 175.000,00 não terá escala de vendas quando um popular à combustão custa cerca de R$ 40.000,00. "E importantes projetos voltados à expansão da eletromobilidade têm ocorrido no País justamente para atender a essa procura.". Será que a procura é tão grande? Parece-me que há uma preocupação das empresas que atuam no setor em não ficarem para trás e por isso estimulam a eletromobilidade com várias notícias e informações, mas omitindo a questão sobre custo do investimento para o consumidor, questão da baixa autonomia e lentidão na recarga comparada aos veículos à combustão. "Com essa nova rede serão 64 pontos de carregamento interligando São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba e Florianópolis com uma cobertura total de 2,5 mil km.". Interligam somente capitais. E o restante do Brasil? E o interior? "O projeto da EDP conta ainda com grandes montadoras e empresas especializadas em soluções de recarga, entre elas a Siemens.". Confirma o que escrevi acima. As empresas não querem ficar para trás na eletrificação, por isso estimulam a demanda. "Vale ressaltar ainda como impulso para essa tendência os benefícios da eletromobilidade que vão além da redução de poluentes na atmosfera.". A produção de baterias não polui? A poluição sai dos grandes centros e é deslocada para outro lugar. Vejo benefícios para os grandes centros urbanos, mas a polução ainda existirá. "Medidas políticas e programas de incentivo serão importantes para nortear as atividades no setor em longo prazo, mas quem está ditando o ritmo da revolução é o próprio mercado.". Será que é o mercado que dita o ritmo? Acredito que tem muita política e lobby de grandes empresas para aumentar a demanda e amenizar a perda de lucro com a queda da demanda de veículos no mundo. Espero ter colaborado para a reflexão.

  • JCParreira

    Acrescentopara reflexão do assunto a questão da importância da ampliação da divulgação do tema para todos nós brasileiros, entendo que a falta de informação e cultural para a utilização serão os gatilhos do tempo para massificação da eletrificação. Concordo que o período para o "...fim da comercialização até 2060..." pareça distante e que seremos mais ágeis que isto, assim como adoraria que a realidade de hoje fosse a mesma de outros continentes, mas para nosso pais continental é essencial que o inicio seja nos grandes centros urbanos, ou melhor, nas cidades inteligentes e sustentáveis, pois somente no adensamento populacional que as grandes dos segmentos afins que possuem tecnologias e expertise internacional tomarão a iniciativa e os devidos investimentos necessários em terras e políticas brasileiras. Na minha opinião, precisamos de muito mais regulamentações com incentivos, aí sim teríamos tempo recorde e a vanguarda na implantação de alternativas energéticas em nosso pais, tão grandioso, rico de natureza e ofertas de energias renováveis e sustentáveis. Ótimo artigo!

Conte-nos o que pensa e deixe seu comentário abaixo Os comentários serão publicados após análise. Este espaço é destinado aos comentários de leitores sobre reportagens e artigos publicados no Portal Automotive Business. Não é o fórum adequado para o esclarecimento de dúvidas técnicas ou comerciais. Não são aceitos textos que contenham ofensas ou palavras chulas. Também serão excluídos currículos, pedidos de emprego ou comentários que configurem ações comerciais ou publicitárias, incluindo números de telefone ou outras formas de contato.

Veja também

ABTV

AB Inteligência