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Opinião | Ronaldo Salvagni |

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Ronaldo Salvagni

11/02/2020

E quando a bateria do carro elétrico arriar?

Módulos intercambiáveis seriam solução para recarga mais rápida e aumento da vida útil do automóvel

Qualquer aparelho elétrico “autônomo”, ou seja, que não precisa estar ligado na tomada para funcionar, usa baterias que podem ser trocadas ou recarregadas. Um carro elétrico não é diferente. Sua bateria não poderia também ser trocada em vez de recarregada?

Nos carros elétricos mais difundidos, a bateria “faz parte” do veículo, sendo muito difícil a sua troca, que seria quase equivalente a uma reforma do carro. Tecnicamente, não precisa ser assim: a bateria poderia ser empacotada em um módulo com encaixes que, com equipamento adequado, seria retirado do carro, substituído em dois ou três minutos e o motorista seguiria em frente.

As baterias retiradas seriam recarregadas no próprio posto, fora do veículo, sem necessidade de equipamentos sofisticados. Os postos precisariam ter apenas o equipamento de troca, padronizado para todos os veículos. O motorista também poderia fazer a recarga em casa, sem a necessidade de pontos especiais na garagem da residência, do prédio ou estacionamento.

A bateria integrada ao carro também tem impacto na vida útil do veículo. No Brasil, até 2018, a frota circulante de automóveis era de 37 milhões de veículos, mas apenas 42% (15 milhões) tinham menos de oito anos de idade. A duração de uma bateria depende do seu uso, mas também do tempo decorrido. Quanto tempo essa bateria vai durar?

A maioria dos fabricantes dá garantia de oito anos e 160 mil quilômetros, com capacidade residual de 60%, para as baterias de seus veículos. Atualmente, o custo de uma bateria nova (50 kwh) seria de aproximadamente US$ 12 mil para o fabricante.

No Brasil, com o pagamento de tributos, o valor de uma bateria avulsa chegaria facilmente a R$ 90 mil sem a instalação. Quando arriar, o carro todo vai virar sucata, pois o custo de substituição não valerá a pena. Se isso ocorresse com os veículos com motor de combustão interna, seria como sucatear mais da metade dos carros em circulação no Brasil.

Assim, comprar um carro elétrico com baterias integradas será um investimento alto e de vida útil curta, que poderá ser viável para frotas ou esquemas de uso compartilhado, mas não para o consumidor comum. Um carro com baterias intercambiáveis pode ficar um pouco mais pesado e caro, mas há boas soluções técnicas para minimizar isso.

Podemos, então, imaginar dois cenários mais prováveis para o futuro mercado do carro elétrico:

Cenário 1, carro com baterias integradas ao veículo – vida útil vinculada à da bateria, muito cara. Viável apenas para carros de frotas ou esquemas de uso compartilhado, com sofisticada logística de recarga; poucos compradores para uso pessoal. Cenário 2, carro com baterias intercambiáveis – vida útil independente da bateria e grande facilidade de recarga. Vendas principalmente para consumidores individuais, com forte mercado de baterias alternativas.

Qual destes mais interessa a todos nós? Em tempo, boa parte desse conteúdo também se aplica às patinetes e bicicletas elétricas, tão na moda, bem como aos veículos híbridos.

Ronaldo de Breyne Salvagni é professor titular do centro de engenharia automotiva da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva

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